Pequenos Grandes Atos (ou Deuses, Heróis ou Renegados?)

Oscar Pistorius

Oscar Pistorius

Esse 2008 foi marcado pelos Jogos Olímpicos de Pequim e pela Crise Econômica Mundial, eventos de impacto global e que devem ter uma influência forte no desenvolvimento da economia internacional nos próximos anos. Em Agosto, o mundo inteiro parou para acompanhar uma das mais grandiosas e impressionantes celebrações olímpicas da história. Esse fato teve maior alarde na mídia não apenas por se tratar da China, mas pela expectativa em torno de sua “abertura” para o mundo e a postura da sua sociedade em relação aos holofotes mundiais.

E por que comecei a falar sobre esse assunto? Bem, há alguns meses atrás numa lista de e-mails, recebi um texto entitulado “Pequenos Grandes Atos”, o qual reproduzo aqui:

“Há alguns anos, nas olimpíadas especiais de Seattle, também chamada de Paraolimpíadas, nove participantes, todos com deficiência mental ou física alinharam-se para a largada da corrida dos cem metros rasos. Ao sinal, todos partiram, não exatamente em disparada, mas com vontade de dar o melhor de si, terminar a corrida e ganhar. Todos, exceto um garoto, que tropeçou no piso, caiu rolando e começou a chorar. Os outros oito ouviram o choro. Diminuíram o passo e olharam para trás. Viram o garoto no chão, pararam e voltaram.Todos eles! Uma das meninas, com Síndrome de Down, ajoelhou-se, deu um beijo no garoto e disse: “pronto, agora vai sarar”. E todos os nove competidores deram os braços e andaram juntos até a linha de chegada.

O estádio inteiro levantou e não tinha um único par de olhos secos. E os aplausos duraram longos minutos. E as pessoas que estavam ali, naquele dia, repetem essa história até hoje. Por que? Porque, lá no fundo, nós sabemos que o que importa nesta vida, mais do que ganhar sozinho, é ajudar os outros a vencer, mesmo que isso signifique diminuir o passo e mudar de curso.”

Esse texto foi comentado de forma inteligente por alguns familiares queridos, gerando alguma reação, e me levando a refletir sobre o assunto. A grande pergunta foi justamente essa: “Por que é que durante as Olimpíadas todo mundo pára pra ver, torcer e se emocionar e nas ParaOlimpíadas não?” –  é realmente  interessante observar as pessoas aplaudirem uma medalha de ouro, e desprezarem qualquer outra expectativa frustrada de resultado. Sobre as para-olimpíadas então, certamente a audiência foi insignificante.

Ao meu ver, as Olimpíadas, como parte de um ritual milenar, trazem de forma associada o imaginário da Grécia antiga e toda a sua mitologia. De forma inconsciente, os jogos invocam o ideal do herói divino, seus reis míticos e a perfeição dos deuses. A luta pela vitória, a busca pela superação, não apenas como forma de glória e prestígio, são parte desse rito, assim como, a integração dos povos, o espírito de luta, cooperação e solidariedade, entre outros valores. Esses conceitos amplificam a magia desse momento, abrindo uma brecha na realidade do nosso cotidiano e instigando justamente a busca pelo lírico. Através dessas imagens milenares, participamos como espectadores em transe. Assistimos incrédulos a dor dos derrotados e obtemos prazer na emoção dos vitoriosos. Infelizmente, na sociedade atual, apenas o triunfo parece importar, deixando de lado a principal característica dos jogos, em que o mais importante não é vencer, mas participar, assim como na vida que reside na luta pela sobrevivência e não apenas pela conquista. Uma característica importante a ser citada, inclusive, é a imagem emblemática da tocha simbolizando a chama da vida.

Para a maioria das pessoas é difícil lidar com o diferente. Assim como é difícil para cada um lidar com suas deficiências, e de seus semelhantes, imagine aceitar as dos outros, no mínimo diferentes? Quem gostaria de constatar que possui algum “defeito”, ou de se imaginar uma situação de exclusão? É bem verdade que o medo de uma realidade como essa é no mínimo assustadora. E por isso, junto com a “massa” vamos cultivando os valores mais passíveis de aceitação. A sociedade dita as regras e a harmonia se constitui na invisibilidade da diferença. Toda atenção é voltada para os holofotes. A situação de indiferença e exlusão é insuportável, talvez insustentável por parte de nossas mentes frágeis, onde não existe uma possível correlação com os mitos e símbolos mais populares. A realidade de desgraça do ser humano e de suas imperfeições, se faz pela fuga através do consumo material ou imaginário. A arte existe como um meio de escape. O esporte pode ser considerado mais um canal. Para os portadores de deficiências, pode servir como forma de superação, e talvez a busca pelo sentido de viver. O ser humano está em busca de Deus, seja qual for a sua crença.

Estamos atrás de nossos limites, e eu particularmente, como “artista” prezo pelo belo, seja ou não, em sua forma subjetiva. Admito fazer parte das tendências, cultuando certos mitos e marcas. Vendo imagens que carregam valores, e sei dessa importância. As vezes, me encontro em crise com esse dilema, mas tento preservar a minha humanidade e a minha sensibilidade, tão valiosa e essencial no meu dia-a-dia. Por isso, ainda reservo tempo para me emocionar com pequenos, e por vezes, imperceptíveis atos de heróis, perfeitos ou imperfeitos, de deuses, olímpicos ou renegados, enfim, atletas, triunfantes ou derrotados, que não passam seres humanos. Uns em busca de aprovação, outros em busca de rendenção.

Mudamos a medida que a vida nos demanda. É uma questão de sobrevivência.

Acho que é isso… o ano está chegando ao fim. Deixo aqui algumas reflexões para o fim de semana.

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7 Comentários

  1. Mudamos a medida que a vida nos demanda…bom seria se a vida tivesse asas, pernas, nem que fossem industriais, para fazer ela mesma seu caminho, e apenas um a todos nós. O ruim é isso, cada um tem uma demanda diferente, e muitos sem vida nenhuma, caro chefeinho.
    Grande Beijo

  2. Ótimo texto. Eu assití boa parte das paraolimpíadas na espn. É incrível!
    ;]

  3. Viva a superação dos atletas paraolímpicos. Eles sim são verdadeiros guerreiros, que se despiram (por necessidade ou não) das máscaras do ego e da vaidade. Veja a história de Dick Hoyt (team Hoyt). Ele é o meu exemplo de superação.

  4. Como Terapeuta Ocupacional, gostaria de te parabenizar pela escolha do texto, e pelo maravilhoso comentário. Na verdade uma visão sobre os deficientes que todos, da dita “massa”, deveriam ter. As ParaOlipiadas sao mais do que um espetaculo, sao um momento de superacao das incapacidades humanas.
    Adorei o blog amigo… de mutio bom gosto, inteligente e culto!!!
    beijos Quel

  5. Felizmente, hoje me dia as paraolimpíadas estão mais em evidência se tornaram um símbolo de superação e orgulho. Parabéns!!! Adorei o seu blog

  6. Acredito que reflexões como a sua são fundamentais para que pessoas de bem resolvam atuar verdadeiramente na integração. Não importa só a integração regional, o mundo mais interdependente estando cada vez mais desumano. A globalização deve ser percebida como uma excelente oportunidade de humanização, da globalização jurídica que nos permite dar mto mais atenção a temas transnacionais e absolutamente fundamentais como Direitos Humanos. Parabéns, Leo!

    Paulinha

  7. Por favor, eu procuro há anos em todo lugar o vídeo desse episódio em Seattle. Se alguém souber onde posso tentar ainda, por favor, me ajudem, postando o link aqui. Obrigado.


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